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Versinhos perdidos

Setembro 26, 2007

Estava eu aqui, no meu computador, abrindo e lendo meus e-mails. Abri a gaveta da mesa. Queria um pedaço de papel para fazer um teste que tinha recebido no meu e-mail. Nisso, me deparo com um caderninho bem familiar. Desses bem vagabundinhos, para anotar coisas triviais.

Deduzi na hora. Meu pai deve ter pego nas minhas tralhas espalhadas pelas gavetas da casa para fazer anotações. Revirei todas as páginas e não tinha nada escrito, exceto, a última.

Um versinho. De amor, claro!

Deveria ter uns 12 ou 13 anos quando o escrevi. Depois de uma risada marota, comecei a lê-lo:

Para alguém que um dia hei de descobrir…
Este inferno de amar
Ai, como eu amo!
Amo o que me despreza
Amo o que me evita
Amo o que me odeia
Amo o impossível
O incorrigível
O que não me ama
O que não me beija
O que não me abraça
Amo todos os que não deveria amar
Só não amo aquele
Que fica alí no cantinho
Me olhando
Pedindo só uma chance para me amar.

Risadas à parte, até que saiu bonitinho. Pra variar, deveria estar passando por mais uma desilusão amorosa, com direito a plágio de Almeida Garret e tudo!

Vai ver era na época que tinha aulas de Literatura, o qual tinha que ler vários poetas. Barroco. Arcadismo. Romantismo, em suas 3 gerações. Realismo. Modernismo. Era tanta coisa!

Dentre as escolas literárias, acho que meu versinho entraria no Romantismo da 2ª geração, os chamados “ultra-românticos”. Diz a história que esta escola recebeu influência dos ingleses e franceses, especialmente de Lord Byron e Musset e que se divulgou entre os estudantes de Direito da época (senti uma ligação!).

Os autores dessa época, segunda metade do século XIX, se deixaram impregnar pelo mal do século: eram jovens, boêmios, egocêntricos, pessimistas, cheios de desilusões e dúvidas. Viviam intensamente. Sonhavam demais. Ironizavam a vida e morriam cedo.

O amor dos ultra-românticos envolve atração e medo, desejo e culpa. Presença marcante também do amor platônico. Os autores mais conhecidos são: Álvares de Azevedo (meu preferido!), Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Fagundes Varela.

É, acho que me identifico com essa geração mesmo, tirando apenas o pessimismo e o egocentrismo. Ainda tô na idade, putz! Espero só não morrer cedo.

“Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
‘Foi poeta, sonhou e amou na vida!’”

(Álvares de Azevedo)