Uma lembrança de infância que tenho é um quadro de fundo amarelo que ficava pendurado na saleta da casa da minha avó. É um quadro bem pequeno, enfeitava a parede dessa sala no apartamento antigo dos meus avôs.
Sempre tive uma paixão por esse quadro, não sei por quê. Ele não tem nenhuma paisagem, nenhuma flor, nenhuma foto, nada. Apenas duas frases.
MEUS ACERTOS NINGUÉM SE LEMBRA.
MEUS ERROS NINGUÉM SE ESQUECE.
Estas palavras para mim soam sempre como uma reflexão. Sempre me deixam pensativa, me fazendo analisar tantas coisas.
Hoje eu não vi o quadro, mas ele me veio à cabeça, num momento de pura e introspectiva reflexão, com frases largadas, palavras soltas, todos à deriva do meu infinito pensamento.
É impressionante a capacidade do ser humano em apenas recordar aquilo que não lhe faz bem ou aquele momento não muito bom que teve na vida.
Sabe, tanta coisa boa aparece e acontece, mas sempre estamos propensos a nos lembrar daquilo que deu errado, daquilo que nos magoou, daquilo que não deveria ser lembrado.
Ao longo dos anos, você conhece tantas pessoas boas, mas você insiste em querer lembrar apenas daquela que te fez sofrer, como se ela merecesse um troféu, o que deveria ser totalmente o contrário.
Pessoas vêm e vão, isso não é nenhuma novidade, afinal a vida está sempre em constante transformação, seja para melhor ou para pior, isso depende de cada um. Mas nunca ficamos parados muito tempo num mesmo momento, numa mesma fase.
O bicho homem é um ser curioso demais, sempre quer aquilo que não está ao seu alcance e até concordo que uma certa dificuldade torna o jogo mais estimulante.
Mas às vezes essa incessante busca pelo impossível cansa e o homem se torna uma pessoa infeliz, melancólica e que mantém suas portas fechadas para um universo desconhecido. Ele não se permite.
E bem nesse momento, tanta coisa boa acontece, mas ele está cego demais para enxergar.
Pessoas que estão ao seu redor pelo simples fato de gostarem de estar ao seu redor. Mas por alguma irracionalidade você não consegue perceber essa pessoa.
E ai eu me pergunto: Será que é preciso você perder essas pessoas para se dar conta do quanto elas eram importantes na sua vida? Do quanto elas te faziam bem, do quanto elas te alegravam, do quanto vocês tinham momentos infinitamente agradáveis?
Eu me recuso em acreditar em demonstrações de admiração quando você perde a pessoa. Por que não fez tudo isso enquanto ela estava ao seu lado? Quando vocês compartilhavam uma vida juntos, quando era gostoso tê-la por perto?
O arrependimento agora é constante nas suas palavras e pensamentos. E você faz questão de dizer agora o quanto você foi um tolo em não notar o quanto àquela pessoa que estava ao seu lado diariamente era maravilhosa.
O que você ganha agora com isso?
Se o gratificante de toda essa história é poder olhar no rosto da pessoa e ao dizer o quanto ela é especial na sua vida, o sorriso dela, meio tímido e acanhado, é o melhor presente que você poderia receber.
Em um mundo em que as pessoas são totalmente individualistas e egoístas, palavras como respeito e admiração estão sendo extintas de muitos vocabulários.
Preserve aqueles ao seu redor, aqueles que lhe fazem bem sem querer nada em troca. Você é o melhor presente para eles.
Não espere perder estas raridades. Tenha os pés no chão. E num tom bem clichê mesmo, você não sabe o dia de amanhã.
Eu costumo dizer que dois raios não costumam cair no mesmo lugar, mas me enganei veementemente nesses últimos tempos. Sortudos são os que podem ter essa chance, mas que infelizmente não conseguem/podem/querem enxergar o óbvio.
E quando minha avó for dessa para melhor, a única herança que eu quero dela é o quadro, para pendurar num cantinho bem especial da minha casa e poder ter vários momentos de reflexão como este.
Uma música?